sábado, março 08, 2008

Manhã



Manhã, que em ti encerra
Este mar que não se altera,
Este vento na galera
Que teima em ti pousar.

Madrugada, de repente
Sou pássaro sou gente,
Tão distante e nunca ausente
E teimo em ti pousar.

Mulher, minha alvorada
Tu és o vento que tarda,
Por ti pouso o cansaço
Na verdade de um poema
Na mentira de um abraço,
Teu leito é o meu regaço
Eu quero assim ficar.

Barco que torna ao porto
No teu corpo eu me aporto,
Aí fico e me recordo
E teimo em ti pousar.

Neblina, despertada
Tão leve quanto a espada,
Que se bate por tudo e nada
E teima em ti pousar.

Mulher, minha alvorada
Tu és o vento que tarda,
Por ti pouso o cansaço
Na verdade de um poema
Na mentira de um abraço,
Teu leito é o meu regaço
Eu quero assim ficar.

Na verdade de um poema
Na mentira de um abraço,
Meu leito é o teu regaço
Eu quero assim ficar.

Pedro Abrunhosa

Fotografia de Vanessa Pelerigo

quinta-feira, fevereiro 28, 2008

Da Condição Humana

Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta.
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue
Que foi do mesmo ventre que surgimos.

José Carlos Ary dos Santos

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

O Amor Não Se Empresta




E o tempo que sentes,
Preso no silêncio das mãos prementes
É tudo aquilo que nos resta...
Tu sabes: “O Amor não se empresta...”


João Garcia Barreto


Fotografia de João Garcia Barreto

segunda-feira, fevereiro 11, 2008

Foz Do Teu Olhar



Perdi-me no silêncio que se estendia
Na serra que cobre o Douro,
Quando a tarde se fez no Sol que se abria
E matizava o chão de ouro.




Perdias-te na saudade que se avizinhava
Ou na aventura que vivias
E, a cada palavra da canção que ocultava,
Simplesmente, sorrias...



E, no ledo passeio,
O beijo foi o ensejo que o tempo escondia...
E, no Molhe deserto,
Abracei-te quando o âmago dizia:

Escondo o Porto na voz,
Quando abraço o mar...
Eis o Mundo que desemboca na Foz do teu olhar.

Texto e Fotografias de: João Garcia Barreto

terça-feira, janeiro 08, 2008

Eufemismo da Memória

Os desusados idealistas partidários são, actualmente, condenados pelos seus próprios partidos, sendo obrigados a dissertar as suas opiniões políticas nos media. Os partidos já não possuem ideais e reflectem, hoje, a demagogia com mais vigor. O dinheiro é, indubitavelmente, o fruto mais apetecido pelos políticos que governam um país iníquo, cuja maioria dos seus habitantes pátrios se encontram entorpecidos e imersos num absentismo de ideais e de sonhos.
O Exmo. Sr. Primeiro-Ministro não é, definitivamente, o Robin dos Bosques e, segundo a comunicação social, não é, também, engenheiro.
A Exma. Sra. Ministra da Educação pretende que sejam os professores a limpar as salas de aulas e as instalações sanitárias das escolas públicas do ensino básico, promovendo o desemprego das tarefeiras.
Os tribunais hibernam. No entanto, continua, por parte dos magistrados, a pesquisa incessante de salas para armazenar mais um número significativo de processos sem julgamento, dado à escassez das mesmas, ignorando o pó sobre os dossiers dos esquecidos casos judiciais. Decerto que a Exma. Sra. Ministra da Educação apresentará a solução para este problema do Ministério da Justiça, podendo até solicitar aos professores a limpeza do pó sobre os referidos dossiers, já que os indivíduos visados terão funções acrescidas.
Contudo, isto é só o eufemismo da memória. Resta-me parafrasear a parábola cómica: " e o contribuinte paga isso?! E o burro sou eu?! E o ruim sou eu?!

Muda-se o Governo e... a sociedade é aquilo que se vê...

Sei que desdenho o que é inútil
E a sabedoria de um lacrau fútil,
Que esbanja demagogia
Nos dias de romaria...
Sei que desdenho o lugar,
Onde se perde tempo a escutar
As verborreias tão exíguas
Ditas por mentes não ambíguas...

Sei que desdenho o consumismo
Que corrobora o materialismo
E toda a instância do Poder
Que transfigura o ser...

Isto é só o materialismo da história,
O eufemismo da memória...

Ai, Portugal,
Por onde me levas...

João Garcia Barreto

domingo, dezembro 23, 2007

Pêndulo III

O pêndulo não possui o hábito de andar à velocidade de um caracol. Qualquer dia, é multado por excesso de velocidade. Hoje, é só mais um dia que o pêndulo circula ao seu ritmo banal...
Tento compreender os breves instantes legados pelo pêndulo em cada segundo que passa e percebo que subsiste, endogenamente, um tempo que perdura em cada canção que escrevo no tempo que vivo agora até ao tempo que se demora.
Porém, nasci num breve instante e, à medida que o tempo evanesce, sei que a vida não é mais do que um momento, cuja duração é efémera e, paradoxalmente, perene por ser parte de alguém...

A quem faz parte de mim...

sábado, dezembro 01, 2007

A Vida - A Arte Perene

A Vida é a arte que se espelha
No nosso planeta em movimento;
É a voz que se esmera
Nas teias de um amor sedento.

A Vida é o apelo escrito no mural
Pelo povo oculto na ausência de expressão;
É o manifesto do vulgo que craveja
Nas ruas em que se desenrola a revolução.

A Vida é a resistência de quem padece
Debaixo da intempérie da guerra,
De quem se imuniza no sonho indelével
Mesmo quando o dia encerra.


João Garcia Barreto

sábado, novembro 17, 2007

Fada do Tempo

Desvendei-te na friagem da noite, quando as asas se quebraram de tanto sobrevoar as lacunas veladas no Mundo. Amainaste os vendavais que pareciam infindáveis e aconchegaste-me no regaço, onde ainda teimo em repousar. Transfiguraste-me… Inverteste a dolência de um anjo enfadonho, emancipando-o com o alento que transborda de ti…
Talvez sejas dona do tempo e saibas inverter sortilégios… De que terno sonho vieste? De que eterno conto surgiste?
Insurgiste-te nos nefastos pesadelos, que me corroíam inexoravelmente, cobrindo-me com um invólucro feérico. Cristalizaste o tempo no meu âmago estrógeno e ofereceste-me hipérboles, metonímias e metáforas sem fim. Com as tuas asas, sou dono do céu… De que noite irrompi? De que sonho renasci? Talvez de ti, Fada do Tempo…

Obrigado, Mãe…

domingo, novembro 04, 2007

Âmago

De braços abertos, voas na cidade
A cada sombra que vês,
Onde devoras o perfume lascivo
Do vento do ensejo na tez.

Beijas-me nas palavras que dizes
Em cada lugar que passas
E a avenida desentedia-se na canção
Do tempo eterno que abraças.

E suspiro enquanto suspiras...
E respiro quando respiras...

E, na cidade cansada,
O âmago que balança,
Ao ver-te, sorri...
E o corpo que baila
No Mundo que dança
Por ter-te aqui...

João Garcia Barreto


A ti, minha alma gémea...

Poema registado na Sociedade Portuguesa de Autores

sábado, novembro 03, 2007

Doce Ensejo

Insurge-se o ensejo, no silêncio do tempo
E a mão aberta que se quer fechar,
Enquanto dançamos na avenida
Antes da manhã regressar...
Desvendo o desejo que se oculta em ti
Na solidão das palavras que recitas
E prendo-me nas teias dos sorrisos
Que, na avenida, dissipas.

E a noite evanesce...
E o tempo permanece em mim...

E se a Lua adormecer,
Sei que me beijas ao amanhecer...
E se o Sol despertar,
Sei que a mão se vai fechar...

Sibila na avenida o doce desejo,
Que se oculta no sopro do vento
E persigo as palavras que soltas
No ledo balanço do momento.


João Garcia Barreto