quarta-feira, outubro 08, 2008

Saudade



João Gil prepara-se para lançar um novo trabalho, contando sempre com o inseparável e sublime poeta, João Monge. Desde já, destaco duas grandes canções, "Hoy el Mar es mas Azul que el Cielo" e "2 Tempos", que poderão ser escutadas aqui.

Por agora, divulgo um dos poucos poemas escritos pelo próprio João Gil.

Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...


Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ah! Cuidado...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...

Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas, porém, colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ah! Bebemos a saudade...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta
Ah! Saudade...


E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da roca a S. Vicente em boa esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ah! Saudades do futuro...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...


João Gil

Ao João Gil por saber preconizar a música portuguesa...

quarta-feira, outubro 01, 2008

Palavras Nunca Antes Ditas

Tudo o que se sobressai da utopia que advogo
Não é mais do que um substrato do tempo que vivi,
Como a lágrima vertida na atmosfera onde vogo
Não é mais do que um piano pungente que tange por ti…
E as mãos que, na solidão, se intimidam,
Que se desertificam aquando o tempo evanesce
Não são mais do que as palavras nunca antes ditas
E veladas num âmago isolado que entorpece…

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…

Tudo o que se ocultava no silêncio temível
Não era mais do que a soturna certeza
Que teimava em calcular pela matemática falível
Nos teoremas esotéricos da imensurável natureza.
E se, novamente, me vires assim, imerso no pensamento,
Pensa que emergi do livro do cepticismo filosófico
Escrito pelas mãos da poesia na candura do tempo
E do exagero desenfreado de um amor platónico.

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…

João Garcia Barreto

quinta-feira, setembro 11, 2008

Venham Mais Cinco

A relação antagónica entre a subida dos preços dos combustíveis e a descida do preço do petróleo demonstra a realidade de um país iníquo e soturno, onde a utopia pereceu...
A educação sucumbe-se pelo absentismo de valores e ideais da fraqueza de um governo, subsistindo no dilema da existência dos três tipos de professores: colocados, não colocados e mal colocados. Todavia, o Estado corrobora que possui o número de professores que necessita.
Os banqueiros martirizam o vulgo indigente com spreads exorbitantes e protegem, minuciosamente, as hipotecas contra a crise financeira do sub-prime, instalada no país dos cowboys, que ameaça invadir Portugal, indultando as dívidas das cigarras opulentas que exploram as formigas trabalhadoras.
Sobrevive-se, assim, no ciclo vicioso...

E, contra a escumalha e os abutres, marchar, marchar com a actual canção:

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá.

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'Aquém e D'Além Mar.

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei.

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem.
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe.

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei.

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem.
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe.


Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.


José Afonso

domingo, agosto 31, 2008

Ledo Hiato


@ Marvão

De tez macia e lasciva,
Sorris à noite, no quarto, onde matizas a Primavera.
Disseminas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Prendes-me num beijo de uma semibreve
E estendo-me num esteiro de um verso.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

De tule pardo e liso,
Vagueias à noite, no quarto, onde o tempo permanece.
Contornas levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que evanesce.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleias-me no regaço de um leito de seda
E perduro nos braços da Poesia.

E deixas-te ficar no ledo hiato
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
Que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...


Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vasco Barreto

sexta-feira, agosto 15, 2008

Bridge Over Troubled Water

When you're weary, feeling small,
When tears are in your eyes,
I will dry them all
I'm on your side.
when times get rough
And friends just can't be found,
Like a bridge over troubled water
I will lay me down.
Like a bridge over troubled water
I will lay me down.

When you're down and out,
When you're on the street,
When evening falls so hard
I will comfort you.
I'll take your part.
When darkness comes
And pain is all around,
Like a bridge over troubled water
I will lay me down.
Like a bridge over troubled water
I will lay me down.

Sail on silvergirl,
Sail on by.
Your time has come to shine.
All your dreams are on their way.
See how they shine.
If you need a friend
I'm sailing right behind.
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind.
Like a bridge over troubled water
I will ease your mind.

Paul Simon

Dedico esta canção, que simboliza a Amizade, a ti, Vasco

Ver vídeo aqui

domingo, julho 20, 2008

Âmago



De braços abertos, voas na cidade
A cada sombra que vês,
Onde devoras o perfume lascivo
Do vento do ensejo na tez.

Beijas-me nas palavras que dizes
Em cada lugar que passas
E a avenida desentedia-se na canção
Do tempo eterno que abraças.

E suspiro enquanto suspiras...
E respiro quando respiras...

E, na cidade cansada,
O âmago que balança,
Ao ver-te, sorri...
E o corpo que baila
No Mundo que dança
Por ter-te aqui...


Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Desconhecido

sábado, julho 12, 2008

A Mulher da Minha Vida


Viver é apenas sobreviver por etapas, sentenciara o padre Angústias num dos nossos últimos encontros. Ao longo da minha vida tenho sido surpreendido pela lembrança das suas frases concisas e pela imagem do seu rosto severo de padre, professor e vigário da minha paróquia, versado em filosofia e lugares-comuns. Apesar da sua presença na minha juventude, nunca fui um homem religioso, pelo menos no sentido dado pela Igreja, nem tenho particular interesse pelos seus dogmas nem pelas suas causas. Vi-o sempre como um mestre e não como um sacerdote. As suas palavras eram fonte de ensinamentos e descoberta de vida. O padre ocupava na minha vida o lugar de um pai ausente.

Não sei explicar porque me ocorreu tudo isto agora, enquanto me dirijo para a Repartição a assobiar o bolero Aquellos Ojos Verdes, que ouvi tocar num baile, em Cacilhas, abrilhantado por uma banda de cinco músicos de olhar fantasma e expressão boémia. Talvez se deva aos avanços e recuos da minha vida, procurando sobreviver como um náufrago que nada apenas com um braço. O mais provável é que me lembre do padre Angústias como de um pai austero, mas presente e amigo de conversar. Tenho na ideia que ele e a minha mãe se conheceram bem melhor do que me quiseram fazer acreditar. Eram da mesma aldeia e de idade próxima. Mas isso agora não vem ao caso.

Subi até à minha sala de trabalho, uma divisão espaçosa com janelas altas viradas para a rua principal, equipada com quatro secretárias e respectivas cadeiras, uma mesa de apoio e dois armários arquivadores, um relógio de parede e um mapa do país pendurado num dos lados da sala. Entrei e cumprimentei os elementos da brigada.

– Bons dias!

– Bons dias, chefe!

Fui até à mesa de apoio e enchi uma chávena de café de balão. Sentei-me à secretária e voltei a folha do calendário: segunda-feira, Março, 1930. Dentro de dias completaria trinta e cinco anos de idade. Uma boa altura para fazer um balanço da vida. Mas eu não era guarda-livros, daí que balanços não fossem comigo. Era polícia, o que exigia outro desembaraço físico e mental. Lembrei-me de Rosarinho, da vontade que tinha de reencontrá-la, embora há muito desconhecesse o seu paradeiro. Não era um caso de polícia, mas um caso de amor e um desejo pessoal. Um amor como aquele que tínhamos vivido não é coisa que se esqueça de um dia para o outro. Mesmo que o tempo e a distância o reduza na memória ao formato de um retrato, como aquele que guardo na carteira.

© António Garcia Barreto

sábado, julho 05, 2008

Horizonte em Mim




Tento ler o céu a cada segundo do tempo que te espero, percebendo que as palavras se encontram espraiadas no Universo. Penso-te no silêncio dos gestos que faço só para te ter sempre em mim. As horas passam, os minutos evanescem e abraço-te para sempre. Quando o dia oscula a noite, desejo-te, profundamente, no tempo que vivo e, preso a ti, percebo que tu és o horizonte em mim...

João Garcia Barreto

terça-feira, junho 10, 2008

Refúgio



A noite adormecia no crepúsculo da manhã
E tu dormias, Princesa, no aconchego do divã,
Onde ousavas viajar sobre o segredo que o mar
Armazenou em mim.
Descobrias que o que vias, era o cimo de uma hera,
Que floria a saudade em tons de Primavera
E eternizava os dias no asilo onde viverias
A sonhar sempre assim…
Entrizaste-te, enfim, do aconchego do divã
E revelaste o que observaste, roendo uma maçã…
Estendeste a tua mão, senti a pulsação,
És parte de mim…
Revelei-te que o horizonte é o fim ecuménico,
Que o lugar onde vives é só um espaço cénico
E o mito que guardamos, é aquilo que sonhamos
Num mundo assim…

Em ti pousei, em ti repousei…
Eis o refúgio que desvendei…
Sei voar, sei flutuar,
Sou um anjo vivo no teu olhar.

Ledamente, o dia surgiu na manhã já despida,
E tu estranhavas, Princesa, a madrugada vivida
No enleio que se eterniza no tempo que se imuniza,
Para sempre, aqui…
Soubeste perguntar onde guardava a magia,
Disse que não sabia sequer onde a escondia,
Pediste-me um beijo, realizei o desejo
Do ensejo sem fim…
Insurgiste-te, no adeus, com o teu jeito peculiar,
Disseste que um anjo sabe sempre regressar,
Osculaste a minha mão, sentiste a pulsação,
Sou parte de ti…
Disseste que esperavas com as mãos abertas
Prometi que regressava nas noites incertas,
Peguei na poesia e na mais bela melodia
E parti assim…

Texto e Fotografia de João Garcia Barreto

sábado, maio 17, 2008

Portugal, Portugal



Tiveste gente de muita coragem
E acreditaste na tua mensagem
Foste ganhando terreno
E foste perdendo a memória

Já tinhas meio mundo na mão
Quiseste impor a tua religião
E acabaste por perder a liberdade
A caminho da glória

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Tiveste muita carta para bater
Quem joga deve aprender a perder
Que a sorte nunca vem só
Quando bate à nossa porta

Esbanjaste muita vida nas apostas
E agora trazes o desgosto às costas
Não se pode estar direito
Quando se tem a espinha torta

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Fizeste cegos de quem olhos tinha
Quiseste pôr toda a gente na linha
Trocaste a alma e o coração
Pela ponta das tuas lanças

Difamaste quem verdades dizia
Confundiste amor com pornografia
E depois perdeste o gosto
De brincar com as tuas crianças

Ai, Portugal, Portugal
De que é que tu estás à espera?
Tens um pé numa galera
E outro no fundo do mar
Ai, Portugal, Portugal
Enquanto ficares à espera
Ninguém te pode ajudar

Jorge Palma

"Finalmente", foi premiado.