sexta-feira, dezembro 19, 2008

Pedaço de Papel



As palavras escasseiam neste pedaço de papel nu. O que fazer, quando existem inúmeras coisas por dizer? O que dizer, quando a saudade contorna a ternura da candura do teu olhar em mim? A alma revela-se, inefavelmente, na terna ausência, onde respiro o ar legado pela atmosfera, enquanto este pedaço de papel se transfigura num simples gesto. E os sonhos corroboram a filantropia que transborda de mim. O que fazer, quando há mil e uma coisas por esbanjar? O que dizer, quando a eternidade tatua o tempo na alma doce e calma? O âmago imuniza, indelevelmente, o beijo e o abraço do regaço de quatro noites demoradas, enquanto este pedaço de papel é tudo aquilo que possuo para te lembrar...

Texto e Fotografia de João Garcia Barreto

terça-feira, dezembro 02, 2008

Parte de Mim


@Avenida dos Aliados - Porto

Onde estiveres, eu estou
Onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres
Assim,
Meu corpo é o teu mundo,
Um beijo um segundo,
És parte de mim.

Para onde olhares
Eu corro,
Se me faltares
Eu morro
Quando vieres,
Distante
Solto as amarras,
E tocam guitarras por ti como dantes.

Agarra-me esta noite,
Sente tempo que eu perdi,
Agarra-me esta noite,
Que amanhã não estou aqui,
Agarra-me esta noite,
Sente tempo que eu perdi,
Agarra-me esta noite,
Que amanhã não estou aqui.

Texto de Pedro Abrunhosa
Fotografia de João Garcia Barreto

domingo, novembro 23, 2008

Anseio-te Em Qualquer Lugar


@Serralves

Anseio o Infinito desenhado no corpo
Coberto por um tule irisado...
Anseio o desejo que se estende no horizonte
Pintado num beijo demorado...
Anseio o desvelo que se espelha no abraço
Legado numa dança no Mundo...
Anseio o ensejo que se insurge no tempo
Matizado num gesto fecundo...

Anseio-te em qualquer lugar,
Onde deixas tanto de ti...
Quero-te, em mim, na leda madrugada,
Onde sintas, depois, o tempo que vivi...

Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vanessa Pelerigo

segunda-feira, novembro 17, 2008

Jardim de Volta



Mãe,
Está na hora de te mostrar o que aprendi.
Diz-me se eu sei…
Diz-me se sentes…
Sei que não mentes. Foi o que herdei.
Mãe, está na hora de eu tratar de ti…

Mãe,
Põe uma echarpe.
Vou mostrar-te onde eu cresci…
Dá-me o teu braço,
Confia em mim…
Ainda te lembras do meu jardim?
Mãe, está na hora de eu te levar a ti…

Mãe,
Está na hora de te dar a vida inteira.
Ouve esta história que me ensinaste,
Está na memória de quem amaste.
Mãe, hoje eu acendo a lareira…

João Monge

Fotografia de João Garcia Barreto

Parabéns, Minha Mãe

domingo, novembro 09, 2008

O Suspiro do Tempo



Peço-te uma noite só aqui,
Onde tudo o que vês é metade de mim...
Quero-te numa noite só assim,
Onde serei, sempre, parte de ti...

Beijas-me na doce loucura
Que as mãos ocultam por entre os dedos...
Benvinda, se quiseres partir na aventura
E na candura dos gestos ledos.

Eis a tua canção na terna ausência...
O suspiro do tempo na profunda inocência...

Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vasco Barreto

domingo, outubro 19, 2008

Esquiços


Numa folha em branco,
Matizo o sorriso que improvisas no jardim
E pinto a silhueta dos gestos das mãos brandas
E dos lábios frios que pousas em mim...
Numa folha em branco,
Realço o sexto sentido que, aqui, reconheces,
E rasuro o tempo que lateja nas mãos abertas
Que revelam aquilo que só tu conheces.

E, na noite, desenho o Mundo
Que forjámos num beijo profundo...
E, na noite, matizo o perene amor assim...

Esquiços de ti...

Texto e Fotografia de João Garcia Barreto

quarta-feira, outubro 08, 2008

Saudade



João Gil prepara-se para lançar um novo trabalho, contando sempre com o inseparável e sublime poeta, João Monge. Desde já, destaco duas grandes canções, "Hoy el Mar es mas Azul que el Cielo" e "2 Tempos", que poderão ser escutadas aqui.

Por agora, divulgo um dos poucos poemas escritos pelo próprio João Gil.

Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...


Chegou hoje no correio a notícia
É preciso avisar por esses povos
Que turbulências e ventos se aproximam
Ah! Cuidado...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...

Foi chão que deu uvas, alguém disse
Umas, porém, colhe-se o trigo, faz-se o pão
E se ouvimos os contos de um tinto velho
Ah! Bebemos a saudade...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta
Ah! Saudade...


E vem o dia em que dobramos os nossos cabos
Da roca a S. Vicente em boa esperança
E de poder vaguear com as ondas
Ah! Saudades do futuro...


Há sempre alguém que nos diz: "tem cuidado".
Há sempre alguém que nos faz pensar um pouco.
Há sempre alguém que nos faz falta.
Ah! Saudade...


João Gil

Ao João Gil por saber preconizar a música portuguesa...

quarta-feira, outubro 01, 2008

Palavras Nunca Antes Ditas

Tudo o que se sobressai da utopia que advogo
Não é mais do que um substrato do tempo que vivi,
Como a lágrima vertida na atmosfera onde vogo
Não é mais do que um piano pungente que tange por ti…
E as mãos que, na solidão, se intimidam,
Que se desertificam aquando o tempo evanesce
Não são mais do que as palavras nunca antes ditas
E veladas num âmago isolado que entorpece…

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…

Tudo o que se ocultava no silêncio temível
Não era mais do que a soturna certeza
Que teimava em calcular pela matemática falível
Nos teoremas esotéricos da imensurável natureza.
E se, novamente, me vires assim, imerso no pensamento,
Pensa que emergi do livro do cepticismo filosófico
Escrito pelas mãos da poesia na candura do tempo
E do exagero desenfreado de um amor platónico.

Por isso, vem… que a saudade não desvanece…
Vem… que o tempo permanece…
E prende-me em ti…

João Garcia Barreto

quinta-feira, setembro 11, 2008

Venham Mais Cinco

A relação antagónica entre a subida dos preços dos combustíveis e a descida do preço do petróleo demonstra a realidade de um país iníquo e soturno, onde a utopia pereceu...
A educação sucumbe-se pelo absentismo de valores e ideais da fraqueza de um governo, subsistindo no dilema da existência dos três tipos de professores: colocados, não colocados e mal colocados. Todavia, o Estado corrobora que possui o número de professores que necessita.
Os banqueiros martirizam o vulgo indigente com spreads exorbitantes e protegem, minuciosamente, as hipotecas contra a crise financeira do sub-prime, instalada no país dos cowboys, que ameaça invadir Portugal, indultando as dívidas das cigarras opulentas que exploram as formigas trabalhadoras.
Sobrevive-se, assim, no ciclo vicioso...

E, contra a escumalha e os abutres, marchar, marchar com a actual canção:

Venham mais cinco
Duma assentada
Que eu pago já
Do branco ou tinto
Se o velho estica
Eu fico por cá.

Se tem má pinta
Dá-lhe um apito
E põe-no a andar
De espada à cinta
Já crê que é rei
D'Aquém e D'Além Mar.

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.

A gente ajuda
Havemos de ser mais
Eu bem sei
Mas há quem queira
Deitar abaixo
O que eu levantei.

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem.
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe.

Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.

Bem me diziam
Bem me avisavam
Como era a lei
Na minha terra
Quem trepa
No coqueiro
É o rei.

A bucha é dura
Mais dura é a razão
Que a sustem.
Só nesta rusga
Não há lugar
Pr'ós filhos da mãe.


Não me obriguem
A vir para a rua
Gritar
Que é já tempo
D'embalar a trouxa
E zarpar.


José Afonso

domingo, agosto 31, 2008

Ledo Hiato


@ Marvão

De tez macia e lasciva,
Sorris à noite, no quarto, onde matizas a Primavera.
Disseminas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Prendes-me num beijo de uma semibreve
E estendo-me num esteiro de um verso.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

De tule pardo e liso,
Vagueias à noite, no quarto, onde o tempo permanece.
Contornas levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que evanesce.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleias-me no regaço de um leito de seda
E perduro nos braços da Poesia.

E deixas-te ficar no ledo hiato
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
Que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...


Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vasco Barreto