sábado, janeiro 10, 2009

Cantiga de Amigo



Nem um poema nem um verso nem um canto
Tudo raso de ausência Tudo liso de espanto

E nem Camões Virgilio Shelley Dante
- O meu amigo está longe
E a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
Tudo calado Todos sem mãe nem pai
Ah! Não, Camões Virgilio Shelley Dante!
- O meu amigo está longe
E a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
Que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgilio Shelley Dante:
O meu amigo está longe
E a saudade é bastante!

Texto de José Carlos Ary dos Santos
Fotografia de Vanessa Pelerigo

Parabéns, Vanessa. Pela Amizade... Pela Música... Pela Poesia que nos une...

quarta-feira, janeiro 07, 2009

O Amor Não Se Empresta



Escrevo-te, de novo, na ausência dos dias
Onde pernoito devagar...
Doi-me a saudade de te querer em mim...
Revejo-te no que, no leito, não me dizias
E osculo-te sem cessar...
Perco-me na memória por te ansiar assim...

Bebo-te em tragos lentos na contradança
Que forjámos aqui...
Sinto a brisa do teu corpo no quarto deserto...
Espero-te na noite, onde a Lua balança...
Depuro-te no que vivi
E lembro-te na despedida no lugar incerto...

E o tempo que sentes,
Preso no silêncio das mãos prementes
É tudo aquilo que nos resta...
Tu sabes: “O Amor não se empresta...”

Texto de João Garcia Barreto

Fotografia de Vanessa Pelerigo

sábado, dezembro 27, 2008

Arte - O Sémen do Amor Mundano



A Arte é a palavra que respira no dicionário,
Que se esmera num livro de poesia.
É a sílaba pronunciada no silêncio plenário,
Que a natureza demonstra por magia.

É o gemido de um piano sonâmbulo,
Que persegue, na noite, o sonhador.
É uma sóbria aresta de um triângulo,
Que a trigonometria desvenda sem pudor.

A Arte é uma lágrima no oceano
Dissipada por um anjo enfadonho;
É o sémen do amor mundano
Plantado nas planícies do sonho.

A Arte é a palavra transfigurada numa rosa,
Que transcende os feitiços do anoitecer.
É a casta beleza da poesia narrada em prosa,
Que interpela o sonhador ao amanhecer.


Texto de João Garcia Barreto

Fotografia de Autor Desconhecido

Um poema escrito no ano 2004

terça-feira, dezembro 23, 2008

Legado pelo Inverno

Inverno não era mais do que um estrangeiro que estagiava em Lisboa durante três meses na era habitual e andava sempre ao ritmo do pêndulo de um relógio. Anunciou a sua chegada com o seu jeito genuíno, despedindo-se do Outono e assustando a velha cigarra. Parece que degustava o primeiro dia que passava no âmago lisbonino.
No dia seguinte, acordou tarde. Sentia-se um torpor indolente. Pegou na pequena alcofa que acarretou do Universo e abraçou o dia. Deambulou no Chiado que estremecia ao vê-lo passar e parou n’A Brasileira, onde cavaqueou com o poeta que se deleitava, como sempre, sentado à mesa da esplanada:
- Falta cumprir-se Portugal! – dizia incessantemente o poeta.
- Deves ter razão, caro amigo – respondia, desta forma, o Inverno.
O dia anoiteceu e o Inverno abandonou o poeta que insistia na mesma afirmação. Desceu pela Rua Garrett em direcção ao Rossio e passou as últimas horas na Avenida da Liberdade.
De madrugada, entrou sorrateiramente na maternidade, sibilando uma canção de embalar. Colocou minuciosamente a pequena alcofa numa cadeira junto à mesa de cabeceira do quarto que, fortuitamente, escolheu e pousou o rebento nos longos esteiros de uma mulher.

João Garcia Barreto

Aos meus pais pelo nascimento do primeiro filho...

sexta-feira, dezembro 19, 2008

Pedaço de Papel



As palavras escasseiam neste pedaço de papel nu. O que fazer, quando existem inúmeras coisas por dizer? O que dizer, quando a saudade contorna a ternura da candura do teu olhar em mim? A alma revela-se, inefavelmente, na terna ausência, onde respiro o ar legado pela atmosfera, enquanto este pedaço de papel se transfigura num simples gesto. E os sonhos corroboram a filantropia que transborda de mim. O que fazer, quando há mil e uma coisas por esbanjar? O que dizer, quando a eternidade tatua o tempo na alma doce e calma? O âmago imuniza, indelevelmente, o beijo e o abraço do regaço de quatro noites demoradas, enquanto este pedaço de papel é tudo aquilo que possuo para te lembrar...

Texto e Fotografia de João Garcia Barreto

terça-feira, dezembro 02, 2008

Parte de Mim


@Avenida dos Aliados - Porto

Onde estiveres, eu estou
Onde tu fores, eu vou
Se tu quiseres
Assim,
Meu corpo é o teu mundo,
Um beijo um segundo,
És parte de mim.

Para onde olhares
Eu corro,
Se me faltares
Eu morro
Quando vieres,
Distante
Solto as amarras,
E tocam guitarras por ti como dantes.

Agarra-me esta noite,
Sente tempo que eu perdi,
Agarra-me esta noite,
Que amanhã não estou aqui,
Agarra-me esta noite,
Sente tempo que eu perdi,
Agarra-me esta noite,
Que amanhã não estou aqui.

Texto de Pedro Abrunhosa
Fotografia de João Garcia Barreto

domingo, novembro 23, 2008

Anseio-te Em Qualquer Lugar


@Serralves

Anseio o Infinito desenhado no corpo
Coberto por um tule irisado...
Anseio o desejo que se estende no horizonte
Pintado num beijo demorado...
Anseio o desvelo que se espelha no abraço
Legado numa dança no Mundo...
Anseio o ensejo que se insurge no tempo
Matizado num gesto fecundo...

Anseio-te em qualquer lugar,
Onde deixas tanto de ti...
Quero-te, em mim, na leda madrugada,
Onde sintas, depois, o tempo que vivi...

Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vanessa Pelerigo

segunda-feira, novembro 17, 2008

Jardim de Volta



Mãe,
Está na hora de te mostrar o que aprendi.
Diz-me se eu sei…
Diz-me se sentes…
Sei que não mentes. Foi o que herdei.
Mãe, está na hora de eu tratar de ti…

Mãe,
Põe uma echarpe.
Vou mostrar-te onde eu cresci…
Dá-me o teu braço,
Confia em mim…
Ainda te lembras do meu jardim?
Mãe, está na hora de eu te levar a ti…

Mãe,
Está na hora de te dar a vida inteira.
Ouve esta história que me ensinaste,
Está na memória de quem amaste.
Mãe, hoje eu acendo a lareira…

João Monge

Fotografia de João Garcia Barreto

Parabéns, Minha Mãe

domingo, novembro 09, 2008

O Suspiro do Tempo



Peço-te uma noite só aqui,
Onde tudo o que vês é metade de mim...
Quero-te numa noite só assim,
Onde serei, sempre, parte de ti...

Beijas-me na doce loucura
Que as mãos ocultam por entre os dedos...
Benvinda, se quiseres partir na aventura
E na candura dos gestos ledos.

Eis a tua canção na terna ausência...
O suspiro do tempo na profunda inocência...

Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vasco Barreto

domingo, outubro 19, 2008

Esquiços


Numa folha em branco,
Matizo o sorriso que improvisas no jardim
E pinto a silhueta dos gestos das mãos brandas
E dos lábios frios que pousas em mim...
Numa folha em branco,
Realço o sexto sentido que, aqui, reconheces,
E rasuro o tempo que lateja nas mãos abertas
Que revelam aquilo que só tu conheces.

E, na noite, desenho o Mundo
Que forjámos num beijo profundo...
E, na noite, matizo o perene amor assim...

Esquiços de ti...

Texto e Fotografia de João Garcia Barreto