A aurora insurge-se na melodia da Primavera que o Sol, ledamente, assobia. Nem o indesejado som do motor dos carros dispersos pela rua contrafaz o belo canto que escuto na manhã clara. Nem as palavras descrevem o beijo que, no silêncio, se quer soltar, quando o âmago se entrega à aventura, deleitando-se na loucura. E, assim, anseio-te em qualquer lugar, onde deixas tanto de ti...
Que linguagem tem o teu coração que não o entendes? Sei que me respiras. Pressinto-te aqui... Sente-me... Pressente-me... Que o âmago saiba aventurar-se no Mundo.Texto e Fotografia de João Garcia Barreto
Dois olhares que se cruzam,
Dois sorrisos que despertam,
Dois corações que se intimidam,
Duas almas que se apertam,
Duas bocas no silêncio ancoradas,
Duas almas que vacilam sem razão,
Duas metades de Lua emaranhadas,
Dois anjos cintilantes na escuridão.
Duas mãos totalmente vazias,
Duas almas cobertas por um véu,
Duas vozes que cantam todos os dias,
Dois pombos paradisíacos, donos do Céu,
Dois corações que sibilam no escuro,
Duas almas vivas na pobreza do Mundo,
Dois corações que anseiam o mesmo futuro,
Duas almas que se saciam num beijo profundo.
Um momento que amanhece
Numa palavra por dizer...
Um regaço que aquece
Um coração a tremer...
Uma mão estendida
De um vagabundo à espera
De um beijo ao adormecer
De uma dama da Primavera...
Texto de João Garcia BarretoUm poema escrito em 2003

O vento sopra de tiÀ minha janela,Despistando rumoresE sempre a tua presençaNesta lua secreta,Sem cupido nem setaQuando à tua nascença,Choraste em mim.Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.Como se o silêncioQue repousa nas casasFosse apenas uma pausaE sempre a tua presençaNesta lua secreta,Sem cupido nem setaQuando à tua nascença,Choraste em mim.Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.Pelos teus olhos, eu visseA tua alma e os despissesAo curar a minha dorNeste rumo sem rotaNinguém sabe de siE, no fundo, sem crença,Ninguém nota a diferençaE tu acreditaste em mim.Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.Texto de João GilFotografia de João Garcia Barreto
Tudo o que vejo não é miragem,
Tudo o que desvendo na alma
Perdura na essência da imagem
Do Mar que nos acalma.
Tudo o que sinto na realidade,
O que armazeno na arca sincera,
Transfigura a doce saudade
Numa rosa da Primavera.
Tudo o que, em mim, flameja,
Tudo o que, em mim, é fecundo,
É a Música que me beija
Numa lacuna do Mundo
Tudo o que perdura nas páginas da verdade,
Tudo o que existe e não tem fim,
Fortalece a doce saudade,
Beijo da Eternidade em mim.
E tudo o que vês não é submerso...
A imagem que observas é o regresso...
De novo, perto de mim,
Observas o Horizonte,
Se eu, a ti, retornei
Foi da água que bebi na fonte.
Estava escrito nas lajes
Da fonte em que bebi,
O segredo que desvendei
Para repousar hoje, aqui.
Texto de João Garcia BarretoFotografia de Vanessa Pelerigo
Percorro a solidão das ruas, onde invento os teus passos e a fragrância das tuas mãos e, quando não estás, anseio-te, desenfreadamente, como um louco que só repete as palavras que usas e, mimeticamente, produz os gestos que perduram na miragem que vê e tange.
A noite adormece devagar ao som reproduzido pela leda madrugada, enquanto o meu corpo se arrasta na sua indolência. São horas de regressar ao quarto vazio, onde te escrevo, na ausência dos dias. Não imaginas os poemas e as pautas inuteis que atapetam o chão. Vem... o Amor urge no desconcerto do Mundo...Texto de João Garcia BarretoFotografia de Vanessa Pelerigo
"A última a morrer é a esperança.
Por isso é que matá-la, cansa!"
Texto de Paulo Abrunhosa
Fotografia de João Garcia Barreto
Nem um poema nem um verso nem um canto
Tudo raso de ausência Tudo liso de espantoE nem Camões Virgilio Shelley Dante- O meu amigo está longeE a distância é bastante.Nem um som nem um grito nem um aiTudo calado Todos sem mãe nem paiAh! Não, Camões Virgilio Shelley Dante!- O meu amigo está longeE a tristeza é bastante.Nada a não ser este silêncio tensoQue faz do amor sozinho o amor imenso.Calai Camões Virgilio Shelley Dante:O meu amigo está longeE a saudade é bastante!
Texto de José Carlos Ary dos SantosFotografia de Vanessa PelerigoParabéns, Vanessa. Pela Amizade... Pela Música... Pela Poesia que nos une...
Escrevo-te, de novo, na ausência dos dias
Onde pernoito devagar...
Doi-me a saudade de te querer em mim...
Revejo-te no que, no leito, não me dizias
E osculo-te sem cessar...
Perco-me na memória por te ansiar assim...
Bebo-te em tragos lentos na contradança
Que forjámos aqui...
Sinto a brisa do teu corpo no quarto deserto...
Espero-te na noite, onde a Lua balança...
Depuro-te no que vivi
E lembro-te na despedida no lugar incerto...
E o tempo que sentes,
Preso no silêncio das mãos prementes
É tudo aquilo que nos resta...
Tu sabes: “O Amor não se empresta...”
Texto de João Garcia BarretoFotografia de Vanessa Pelerigo
A Arte é a palavra que respira no dicionário,
Que se esmera num livro de poesia.
É a sílaba pronunciada no silêncio plenário,
Que a natureza demonstra por magia.
É o gemido de um piano sonâmbulo,
Que persegue, na noite, o sonhador.
É uma sóbria aresta de um triângulo,
Que a trigonometria desvenda sem pudor.
A Arte é uma lágrima no oceano
Dissipada por um anjo enfadonho;
É o sémen do amor mundano
Plantado nas planícies do sonho.
A Arte é a palavra transfigurada numa rosa,
Que transcende os feitiços do anoitecer.
É a casta beleza da poesia narrada em prosa,
Que interpela o sonhador ao amanhecer.
Texto de João Garcia BarretoFotografia de Autor DesconhecidoUm poema escrito no ano 2004
Inverno não era mais do que um estrangeiro que estagiava em Lisboa durante três meses na era habitual e andava sempre ao ritmo do pêndulo de um relógio. Anunciou a sua chegada com o seu jeito genuíno, despedindo-se do Outono e assustando a velha cigarra. Parece que degustava o primeiro dia que passava no âmago lisbonino.No dia seguinte, acordou tarde. Sentia-se um torpor indolente. Pegou na pequena alcofa que acarretou do Universo e abraçou o dia. Deambulou no Chiado que estremecia ao vê-lo passar e parou n’A Brasileira, onde cavaqueou com o poeta que se deleitava, como sempre, sentado à mesa da esplanada:- Falta cumprir-se Portugal! – dizia incessantemente o poeta.- Deves ter razão, caro amigo – respondia, desta forma, o Inverno.O dia anoiteceu e o Inverno abandonou o poeta que insistia na mesma afirmação. Desceu pela Rua Garrett em direcção ao Rossio e passou as últimas horas na Avenida da Liberdade.De madrugada, entrou sorrateiramente na maternidade, sibilando uma canção de embalar. Colocou minuciosamente a pequena alcofa numa cadeira junto à mesa de cabeceira do quarto que, fortuitamente, escolheu e pousou o rebento nos longos esteiros de uma mulher.João Garcia BarretoAos meus pais pelo nascimento do primeiro filho...