segunda-feira, fevereiro 16, 2009

No Voo de Um Anjo

Da janela do quarto,
A tua fobia suspirava...
Esperavas pelo anjo,
Que tardava.
E dos jardins de Éden,
Irrompe num voo inaudito,
O anjo que aguardavas
No teu lugar interdito.

E no silêncio do quarto,
Só o teu esgar não negou
A Eternidade de um beijo
De quem ao momento se entregou.
E com o desvelo de um abraço
De um anjo eterno que voou,
Imunizaste no leito
O amor que, no quarto, deixou.

No voo de um anjo,
Onde flutuavas,
Desarvorou a dolência
Que tanto exorcizavas.
E no parapeito do postigo,
Lá se despediu
O teu anjo perene
Que só o teu olhar viu.

Texto de João Garcia Barreto


A canção pode ser escutada aqui

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Crónica do Lendário Sibilante



Mais um dia que finalizava e a avenida parecia dormir… A Lua abandonou a noite pluviosa e, peremptoriamente, retornei ao refúgio, vasculhando as infinitas lacunas da cidade. A volúpia viperina espreitava pelos becos da avenida quase deserta, enquanto disseminava resquícios do amor genuíno, convertidos em retalhos de utopia na urbe ostracizada.
No silêncio da noite, pensava nas aventuras que, loucamente, vivi e seguia, estoicamente, o rasto deixado pelo ensejo. Sibilava melodias sem fim na ânsia de preconizar o segredo que respirava na avenida e vislumbrei-te no parapeito do postigo, onde, desenfreadamente, plangias. Perguntei-te porque carpias e encolheste os ombros, desviando o olhar que se intimidava. Insisti em questionar-te, cotejando o silêncio que teimavas em ocultar. Balbuciaste escassas palavras que revelavam o que ocultavas no âmago vulnerável que, ainda, possuis e, instantaneamente, enleaste o regaço de um abraço profundo.
Convidei-te para voar e, abruptamente, estendeste-me a mão. Ergui os braços e seguraste-te, firmemente, no cós do corpo de plumas. Prestes, partimos… Voámos sobre o Mundo e a beleza inaudita daquilo que vias e do ar puro da atmosfera que bafejava no semblante que sorria.
Levei-te ao espaço, onde teimo em pousar. Deslindaste todos os segredos que armazenava no refúgio, escutando os ecos da melopeia latente em mim. Após um ósculo demorado, clamaste, perdidamente, pelo perene amor como o verso do soneto eternizado pelo poeta.
As horas passam e os minutos esvaecem... Retornámos ao postigo, onde o teu esgar se vulnerou e, na candura do momento, acariciei-o, prometendo que regressava nas noites incertas. Na terna despedida, lacrimejaste, profundamente, rogando, em desespero, que não partisse. Perguntaste-me quem era… Olhei diante dos teus olhos e respondi: “Sibilante”.
Quando adormeceste, deixei, no parapeito do postigo, as duas pedras que se complementam e parti como uma cotovia, infiltrando-me na infinita atmosfera, onde se encontra o adágio que escrevi.
Irrompeu a soberba aurora... Arvoraste-te, ledamente, do leito de seda. O Sol erradiava e reflectia-se na vidraça da janela e, endogenamente, sentias a melopeia composta no quarto contemplado, onde imunizaste as pedras legadas.
Enfim, abandonaste o lar, cotejando, de novo, o frenesim cotio que se vive, constantemente, no âmago citadino. Indagaste o nome das pedras legadas em cada passo que davas e, em cada palavra que proferias, percebias que necessitavas de uma chave que abrisse a porta do espaço, onde o segredo se encontrava armazenado. Procuraste a chave em cada lacuna da cidade, constatando que, somente, conseguirias desvendá-la se preconizasses a filantropia no Mundo.
No final do dia, a saudade do tempo vivido suspirava na réstia do Sol e concluíste que a chave só poderia ser um substantivo abstracto, composto por quatro letras e idónea de desenredar o segredo do nome das duas pedras que tanto observavas.
No regresso ao parapeito do postigo do quarto, entregavas-te ao tempo no beijo desenfreado que desembocou no sorriso desenhado no semblante que observava. Contei-te histórias sem fim, enquanto bebias as palavras em tragos lentos.
Entrizei-me do leito macio, onde aconchegávamos o corpo e a alma e apontei para o parapeito. As pedras fulgiam e a Lua sorria no manto de estrelas que cobria a cidade cansada.
Por fim, trocámos o derradeiro olhar na madrugada, onde leste o nome das pedras doadas que se complementam e, antes de partir, interpelaste-me: “ Sibilante, é o sonho que comanda a vida? “
Beijei a tua mão e respondi: “ Sim, a vida pode ser o que sonhamos...”

Texto de João Garcia Barreto
Pintura a Aguarela, gentilmente, cedida por Cristina Huertas

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Arauto de Éden



De tanto sobrevoar,
Indaguei uma lacuna no Mundo,
Em cada espaço, uma candeia acesa...
Em cada toada, um grito profundo...
Encontrei um postigo aberto
E pousei no parapeito.
Soltei um sopro nevado,
Logo, surgiu o esgar desfeito.
Porque planges na madrugada?
Porque deturpas a alvorada?

Sou um arauto de Éden
Que, no teu quarto, veio repousar.
E desvendo o horizonte
No esplendor do teu olhar.
Escuta a doce melopeia,
Que sibila dentro de ti,
Torna perene o tempo
E a missiva que deixo aqui.

Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Miguel Rezende

Em memória do meu avô, Joaquim Barreto...

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Advogo

Advogo a filantropia,
Não ignoro a caducidade.
Observo o Mundo de noite e de dia
E vejo sempre a claridade.

Não advogo a retórica,
Nada é objecto de persuação.
A política é alérgica à filosofia,
É uma plutocracia sem razão,
Uma demagogia que pantomina
Numa sociedade sem propensão…

Advogo o teu ser,
A tua luz que me ilumina
E a tua arte escondida
Numa quimera genuína…

Advogo o que existe
Na mente que incita
O amor que se esconde
Na alma inaudita.

Advogo a candura do vento,
Que bafeja o que não é banal,
Nasce nos confins da Utopia,
Suaviza a cegueira infernal
E traça a linha longa do horizonte
Na plenitude do pantanal.


Texto de João Garcia Barreto

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Doce Ensejo

Insurge-se o ensejo, no silêncio do tempo
E a mão aberta que se quer fechar,
Enquanto dançamos na avenida
Antes da manhã regressar...
Desvendo o desejo que se oculta em ti
Na solidão das palavras que recitas
E prendo-me nas teias dos sorrisos
Que, na avenida, dissipas.

E a noite esvaece...
E o tempo permanece em mim...

E se a Lua adormecer,
Sei que me beijas ao amanhecer...
E se o Sol despertar,
Sei que a mão se vai fechar...

Sibila na avenida o doce desejo,
Que se oculta no sopro do vento
E persigo as palavras que soltas
No ledo balanço do momento.

Texto de João Garcia Barreto

domingo, fevereiro 01, 2009

Que Linguagem Tem o Teu Coração Que Não o Entendes?



A aurora insurge-se na melodia da Primavera que o Sol, ledamente, assobia. Nem o indesejado som do motor dos carros dispersos pela rua contrafaz o belo canto que escuto na manhã clara. Nem as palavras descrevem o beijo que, no silêncio, se quer soltar, quando o âmago se entrega à aventura, deleitando-se na loucura. E, assim, anseio-te em qualquer lugar, onde deixas tanto de ti...
Que linguagem tem o teu coração que não o entendes? Sei que me respiras. Pressinto-te aqui... Sente-me... Pressente-me... Que o âmago saiba aventurar-se no Mundo.


Texto e Fotografia de João Garcia Barreto

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Paixão - Um Momento Que Amanhece

Dois olhares que se cruzam,
Dois sorrisos que despertam,
Dois corações que se intimidam,
Duas almas que se apertam,
Duas bocas no silêncio ancoradas,
Duas almas que vacilam sem razão,
Duas metades de Lua emaranhadas,
Dois anjos cintilantes na escuridão.

Duas mãos totalmente vazias,
Duas almas cobertas por um véu,
Duas vozes que cantam todos os dias,
Dois pombos paradisíacos, donos do Céu,
Dois corações que sibilam no escuro,
Duas almas vivas na pobreza do Mundo,
Dois corações que anseiam o mesmo futuro,
Duas almas que se saciam num beijo profundo.

Um momento que amanhece
Numa palavra por dizer...
Um regaço que aquece
Um coração a tremer...

Uma mão estendida
De um vagabundo à espera
De um beijo ao adormecer
De uma dama da Primavera...

Texto de João Garcia Barreto


Um poema escrito em 2003

terça-feira, janeiro 27, 2009

2 Tempos



O vento sopra de ti
À minha janela,
Despistando rumores
E sempre a tua presença
Nesta lua secreta,
Sem cupido nem seta
Quando à tua nascença,
Choraste em mim.
Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.

Como se o silêncio
Que repousa nas casas
Fosse apenas uma pausa
E sempre a tua presença
Nesta lua secreta,
Sem cupido nem seta
Quando à tua nascença,
Choraste em mim.
Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.

Pelos teus olhos, eu visse
A tua alma e os despisses
Ao curar a minha dor
Neste rumo sem rota
Ninguém sabe de si
E, no fundo, sem crença,
Ninguém nota a diferença
E tu acreditaste em mim.
Lembra-te que o amor é um mundo sem fim.

Texto de João Gil
Fotografia de João Garcia Barreto

sexta-feira, janeiro 23, 2009

Beijo da Eternidade



Tudo o que vejo não é miragem,
Tudo o que desvendo na alma
Perdura na essência da imagem
Do Mar que nos acalma.
Tudo o que sinto na realidade,
O que armazeno na arca sincera,
Transfigura a doce saudade
Numa rosa da Primavera.
Tudo o que, em mim, flameja,
Tudo o que, em mim, é fecundo,
É a Música que me beija
Numa lacuna do Mundo
Tudo o que perdura nas páginas da verdade,
Tudo o que existe e não tem fim,
Fortalece a doce saudade,
Beijo da Eternidade em mim.

E tudo o que vês não é submerso...
A imagem que observas é o regresso...

De novo, perto de mim,
Observas o Horizonte,
Se eu, a ti, retornei
Foi da água que bebi na fonte.
Estava escrito nas lajes
Da fonte em que bebi,
O segredo que desvendei
Para repousar hoje, aqui.

Texto de João Garcia Barreto

Fotografia de Vanessa Pelerigo

segunda-feira, janeiro 19, 2009

O Amor Urge no Desconcerto do Mundo



Percorro a solidão das ruas, onde invento os teus passos e a fragrância das tuas mãos e, quando não estás, anseio-te, desenfreadamente, como um louco que só repete as palavras que usas e, mimeticamente, produz os gestos que perduram na miragem que vê e tange.
A noite adormece devagar ao som reproduzido pela leda madrugada, enquanto o meu corpo se arrasta na sua indolência. São horas de regressar ao quarto vazio, onde te escrevo, na ausência dos dias. Não imaginas os poemas e as pautas inuteis que atapetam o chão. Vem... o Amor urge no desconcerto do Mundo...


Texto de João Garcia Barreto
Fotografia de Vanessa Pelerigo