quarta-feira, junho 15, 2011
No Voo de Um Anjo
A tua fobia suspirava...
Esperavas pelo anjo,
Que tardava.
E dos jardins de Éden,
Irrompe num voo inaudito,
O anjo que aguardavas
No teu lugar interdito.
E, no silêncio do quarto,
Só o teu esgar não negou
A Eternidade de um beijo
De quem ao momento se entregou.
E, com o desvelo de um abraço
De um anjo eterno que voou,
Imunizaste no leito
O amor que, no quarto, deixou.
No voo de um anjo,
Onde flutuavas,
Desarvorou a dolência
Que tanto exorcizavas.
E, no parapeito do postigo,
Lá se despediu
O teu anjo perene
Que só o teu olhar viu.
Texto de João Garcia Barreto
A versão da canção para efeitos de registo pode ser escutada aqui
segunda-feira, abril 18, 2011
O Suspiro do Tempo
Onde tudo o que vês é metade de mim...
Quero-te numa noite só, assim,
Onde serei, sempre, parte de ti...
Beijas-me na doce loucura
Que as mãos ocultam entre os dedos.
Bem-vinda, se quiseres partir na aventura
E na candura dos gestos ledos.
Eis a tua canção na terna ausência...
O suspiro do tempo na profunda inocência...
Texto de João Garcia Barreto
terça-feira, fevereiro 15, 2011
Ledo Hiato
Sorris, no quarto, onde matizas a Primavera.
Dispersas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Preso no beijo de uma semibreve,
Estendo-me no esteiro de um verso.
E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...
De tule pardo e liso,
Vagueias, no quarto, onde o tempo permanece.
Traças levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que esvanece.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleado no regaço de um leito de seda,
Perduro nos braços da Poesia.
E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...
Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
Que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.
E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...
Texto de João Garcia Barreto
domingo, janeiro 30, 2011
Persegue-me
Que pousas no chão da aventura
E dança na euritmia da canção
Que ecoa no silêncio da loucura.
Persegue o bálsamo da madrugada,
Quando o âmago se desarma no leito
E absorve a paixão que se alberga
Na noite que espelha o amor perfeito.
E o ensejo irrompe na silhueta rara
Do ledo corpo que baila na estrada
E rasuras o tempo no céu da manhã clara
E abraças o Mundo na noite findada.
Texto de João Garcia Barreto
sexta-feira, dezembro 24, 2010
Natal dos Simples
Vamos cantar as janeiras,
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas solteiras.
Vamos cantar as janeiras,
Vamos cantar as janeiras,
Por esses quintais adentro vamos
Às raparigas casadas.
Vira o vento e muda a sorte,
Vira o vento e muda a sorte,
Por aqueles olivais perdidos
Foi-se embora o vento norte.
Muita neve cai na serra,
Muita neve cai na serra,
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem tem saudades da terra.
Quem tem a candeia acesa,
Quem tem a candeia acesa,
Rabanadas, pão e vinho novo,
Matava a fome à pobreza.
Já nos cansa esta lonjura,
Já nos cansa esta lonjura,
Só se lembra dos caminhos velhos
Quem anda à noite à ventura
Texto de José Afonso
quinta-feira, dezembro 23, 2010
Legado pelo Inverno
Inverno não era mais do que um estrangeiro que estagiava em Lisboa durante três meses na era habitual e andava sempre ao ritmo do pêndulo de um relógio. Anunciou a sua chegada com o seu jeito genuíno, despedindo-se do Outono e assustando a velha cigarra. Parece que degustava o primeiro dia que passava no âmago lisbonino.
No dia seguinte, acordou tarde. Sentia-se um torpor indolente. Pegou na pequena alcofa que acarretou do Universo e abraçou o dia. Deambulou no Chiado que estremecia ao vê-lo passar e parou n’A Brasileira, onde cavaqueou com o poeta que se deleitava, como sempre, sentado à mesa da esplanada:
- Falta cumprir-se Portugal! – dizia incessantemente o poeta.
- Deves ter razão, caro amigo – respondia, desta forma, o Inverno.
O dia anoiteceu e o Inverno abandonou o poeta que insistia na mesma afirmação. Desceu pela Rua Garrett em direcção ao Rossio e passou as últimas horas na Avenida da Liberdade.
De madrugada, entrou sorrateiramente na maternidade, sibilando uma canção de embalar. Colocou minuciosamente a pequena alcofa numa cadeira junto à mesa de cabeceira do quarto que, fortuitamente, escolheu e pousou o rebento nos longos esteiros de uma mulher.
Texto de João Garcia Barreto
quinta-feira, dezembro 02, 2010
Quando se Ama o Porto
Quando o carro abraçou o Porto
Que, sob a ponte, açulava o anelo
Que persistia no dia já morto.
Esperei-te na leda madrugada
Que vacilava sobre o rio que dormia
E, todavia, devaneava na calçada
Sob a Lua que, no céu, se desentedia.
E a tez macia da cidade adormecida...
E os esteiros de cetim sobre mim
Em plena avenida...
Quando se ama o Porto,
Dilata-se, na noite, o espaço
E quem anseia um beijo absorto
Sente, sempre, perto o regaço.
Despertei, ao timbre de Abrunhosa,
Quando a manhã, de novo, se abriu
Que, sob a neblina, espelhou a luz
Na cidade, onde faz sempre frio.
Saboreei-te no canapé do Majestic
E, depois, no Barco para a Afurada,
Onde troquei o Porto pela viagem
Do eterno sonho na madrugada.
E a tez sublime da cidade já despida...
E os esteiros de cetim sobre mim
Em plena avenida...
Quando se ama o Porto,
Dilata-se, na noite, o espaço
E quem anseia um beijo absorto
Sente, sempre, perto o regaço.
Texto e Fotografia de João Garcia Barreto
quarta-feira, novembro 17, 2010
As Luvas de Minha Mãe
O regaço permanente
Esse beijo transparente
que me dás só de o pensar.
De onde vem
A promessa de alegria
A doce melancolia
Que eu herdei do teu olhar.
De onde vem
Este amor que me pressente
Que me dói se estou ausente
Dessa dor que ele me tem.
De onde vem
O saber não aprendido
Do coração aquecido
Nas luvas de minha mãe.
Texto de João Monge
A ti, minha Mãe...
quarta-feira, novembro 10, 2010
Âmago de Guitarrista
Texto de João Garcia Barreto, escrito, depois, da actuação no Herman SIC (Outubro 2006).
Ao Phil, por ser genuíno, pela sua genialidade e por confiar no som endógeno que os meus dedos reproduzem...
terça-feira, novembro 02, 2010
Eufemismo da Memória
E a sabedoria de um lacrau fútil
Que esbanja demagogia
Nos dias de romaria.
Sei que desdenho o lugar,
Onde se perde tempo a escutar
As verborreias tão exíguas
Ditas por mentes não ambíguas...
Sei que desdenho o consumismo,
Que corrobora o materialismo
E toda a instância do poder
Que transfigura o ser...
Isto é só o materialismo da história,
O eufemismo da memória...
Texto de João Garcia Barreto
Às vezes, é necessário, de uma forma simples, poética e directa, manifestar o desgosto de (sobre)viver num Estado iníquo e plutocrata... O que podemos, assim, legar às crianças de Hoje ou aos jovens e adultos de Amanhã?
Ao meu pai ("Vai Dar Tudo Ao Mesmo").
Por um país melhor...