segunda-feira, junho 01, 2009

As crianças... e a Poesia...

"Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do Mundo são as crianças,
Flores, música, o luar e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca..."

in Liberdade de Fernando Pessoa

"Eles não sabem, nem sonham,
Que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
O mundo pula e avança
Como uma bola colorida
Entre as mãos de uma criança."

in Pedra Filosofal de António Gedeão

"A Música é uma espécie de céu
Que se esconde nas mãos de uma criança...
É a alma que se envolve num véu
Repleto de melodias de bonança..."

in A Música - O Lugar da Quimera de João Garcia Barreto

domingo, abril 19, 2009

Menina de Olhar o Mar

Menina de Olhar o Mar,
Que escutas, no zéfiro da maresia,
As plácidas palavras que te conduzem
Ao culminar da porfia,
Entrega-te ao vento
Como um veleiro no alto mar,
Que desliza em perpétuo movimento
Até um dia se ancorar.

Menina de Olhar o Mar,
Desfruta o viço da maresia
E voa com asas implumes
Para os confins da Fantasia.

Texto de João Garcia Barreto


Uma canção de embalar composta em 2003

domingo, abril 05, 2009

Persegue-me

Persegue o bailado das mãos
Que pousas no chão da aventura
E dança na euritmia da canção
Que ecoa no silêncio da loucura.

Persegue o bálsamo da madrugada,
Quando o âmago se desarma no leito
E absorve a paixão que se alberga
Na noite que espelha o amor perfeito.

E o ensejo irrompe na silhueta rara
Do ledo corpo que baila na estrada
E rasuras o tempo no céu da manhã clara
E abraças o Mundo na noite findada.


Texto de João Garcia Barreto

segunda-feira, março 30, 2009

Silêncio

Silêncio é a palavra que habita, que palpita
Toda a música que faço.
É a cidade onde aportam os navios
Cheio de sons, de distância, de cansaço.
É esta rua onde despida a valentia
A cobardia se embriaga pelo aço.
É o sórdido cinema onde penetro
E encoberto me devolvo ao teu regaço.
É a luz que incendeia as minhas veias,
Os fantasmas que se soltam no olhar,
Que te acompanham nos lugares onde passeias,
É o porto onde me perco a respirar.
Silêncio são os gritos de mil gruas,
E o som eterno das barcaças
Que chiando navegam pelas ruas,
E dos rostos que se escondem nas vidraças.

Quem me dera poder conhecer
Esse silêncio que trazes em ti,
Quem me dera poder encontrar
O silêncio que fazes por mim.
Pelo silêncio se mata,
Por silêncio se morre,
Tens o meu sangue nas veias,
Será que é por mim que ele corre?

Somos dois estranhos
Perdidos na paz,
Em busca de silêncio
Sozinhos demais,
Somos dois momentos,
Dois ventos cansados,
Em busca da memória
De tempos passados.

Silêncio é o rio que esconde
O odor de um prédio enegrecido,
O asfalto que me assalta quando paro,
Assomado por um corpo já vencido.
Silêncio são as luzes que se apagam
Pela noite, na aurora já despida,
E os homens e mulheres que na esquina
Trocam prazeres, virtudes, talvez Sida.
Silêncio é o branco do papel
E o negro pálido da mão,
É a sombra que se esvai feita poema,
Num grafitti que é gazela ou leão.
Silêncio são as escadas do metro
Onde poetas se mascaram de videntes,
Silêncio é o crack que circula
Entre as ruas eleitas confidentes.

Quem me dera poder conhecer
Esse silêncio que trazes em ti,
Quem me dera poder encontrar
O silêncio que fazes por mim.
Pelo silêncio se mata,
Por silêncio se morre,
Tens o meu sangue nas veias,
Será que é por mim que ele corre?

Somos dois estranhos
Perdidos na paz,
Em busca de silêncio
Sozinhos demais,
Somos dois momentos,
Dois ventos cansados,
Em busca da memória
De tempos passados.


Silêncio é este espaço que há em mim,
Onde me escondo para chorar e ser chorado,
É o pincel que se desfaz na tua boca,
Em qualquer doca do teu seio decotado.

Somos dois estranhos
Perdidos na paz,
Em busca de silêncio
Sozinhos demais,
Somos dois momentos,
Dois ventos cansados,
Em busca da memória
De tempos passados.


Silêncio...

Texto de Pedro Abrunhosa

quarta-feira, março 18, 2009

Caos No Deserto

Eis o eco da sociedade
No silêncio amargo que, infelizmente, sentes…
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos prementes…
Eis a exígua verborreia
Da pura demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.

E a justiça embargada
Nas estantes do tribunal
E a violência anunciada
Na capa do jornal,
É, somente, a desilusão
Em Portugal…

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.

Eis o crédito mal parado,
No declínio da economia, que o banqueiro contamina…
Na assembleia dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina…
Eis a crise da educação,
Na ignorância de uma nação, que se corrói sem cessar…
Eis a vil plutocracia
Que matou a Utopia que a Liberdade soube legar…

E a justiça embargada
Nas estantes do tribunal
E a violência anunciada
Na capa do jornal,
É, somente, a desilusão
Em Portugal…

Caos no deserto que vês tão perto…
Destrói o muro que fustiga o futuro.


Texto de João Garcia Barreto

sexta-feira, março 13, 2009

Às Vezes, o Amor

-Que hei-de eu fazer
Eu tão nova e desamparada
Quando o amor
Me entra de repente
P´la porta da frente
E fica a porta escancarada?


-Vou-te dizer
A luz começou em frestas.
Se fores a ver
Enquanto assim durares
Se fores amada e amares
Dirás sempre palavras destas:


-Para te ter
E para que, de mim, não te zangues,
Eu vou-te dar
A pele do meu cetim
Coração carmesim
As carnes e, com elas, sangues.


Às vezes, o amor
No calendário,

Noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo
O dia é tão diário

Disso tudo

-E se um dia a razão
Fria e negra do destino
Deitar mão
À porta à luz aberta
Que te deixe liberta
E do pássaro se ouça o trino:


-Por te querer
Vou abrir, em mim,

Dois espaços
Para te dar
Enredo ao folhetim
A flor ao teu jardim
As pernas e, com elas, braços.

Às vezes o amor
No calendário,

Noutro mês, é dor,
É cego e surdo e mudo.
O dia é tão diário disso tudo.


Mas se tudo tem fim
Porquê dar ao amor guarida?
Mesmo assim
Dá princípio ao começo
Se morreres só te peço:
Da morte volta sempre em vida.


Às vezes o amor
No calendário,

Noutro mês é dor,
É cego e surdo e mudo
O dia é tão diário disso tudo...

Texto de Sérgio Godinho

quarta-feira, março 04, 2009

Ledo Hiato

De tez macia e lasciva,
Sorris à noite, no quarto, onde matizas a Primavera.
Disseminas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Prendes-me num beijo de uma semibreve
E estendo-me num esteiro de um verso.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

De tule pardo e liso,
Vagueias à noite, no quarto, onde o tempo permanece.
Contornas levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que evanesce.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleias-me no regaço de um leito de seda
E perduro nos braços da Poesia.

E deixas-te ficar no ledo hiato
Onde bailam anjos num silêncio lauto...

Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
Que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos num silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...


Texto de João Garcia Barreto

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

Senta-te Aí

Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora e durante a vida inteira.

Podes ter uma luta que é só tua
Ou, então, ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés.

Estou cansado. Aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho para escrever
Tens de ser tu, com o teu próprio punho
Era isto o que te queria dizer.

Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade.
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade.

Texto de João Monge

Parabéns, Grande Pai

domingo, fevereiro 22, 2009

Eufemismo da Memória

Sei que desdenho o que é inútil
E a sabedoria de um lacrau fútil,
Que esbanja demagogia
Nos dias de romaria...
Sei que desdenho o lugar,
Onde se perde tempo a escutar
As verborreias tão exíguas
Ditas por mentes não ambíguas...

Sei que desdenho o consumismo
Que corrobora o materialismo
E toda a instância do Poder
Que transfigura o ser...

Isto é só o materialismo da história,
O eufemismo da memória...

Ai, Portugal,
Por onde me levas...

Texto de João Garcia Barreto

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Um Homem Como Eu

Imagina um homem como eu...
Não eu!
Um homem como eu, magro e grisalho...
Desses que até um véu dá de agasalho.
Não eu... mas um homem como eu
Que ama a fragilidade da lua e a tristeza das flores,
De todas as flores por causa tua
Podes tentar...

Imagina um homem como eu...
Não eu! Que ama com as mãos e com a voz
E, meu Deus, como são as tuas mãos...
São as mãos que todos nós – os homens como eu
Beijamos só de olhar,
Olhamos só de amar...
As mãos da mulher amada
São de ficar de mão dada, comendo um gelado,
Olhando o céu dos pardais...
Não eu! Que sou dos tais tão difíceis de gostar,
Mas um homem como eu
Feito só de imaginar.

Imagina um homem como eu...
Não eu!
Mas um homem que de seu
Tem o medo inicial
Da corrida das crianças
E o vermelho facial
Das primeiras danças a dois,
Quando sorris...
Mas que, depois, se deixa sempre levar
Por tudo o que tu lhe dás.
Vá, diz! Amar um homem como eu,
Eras capaz?

João Monge