domingo, junho 27, 2010

Rosa à Janela

Tenho um vasinho de rosas à janela
Que ela trouxe consigo
Quando as vejo tão formosas,
Lembro-me dela,
Lembro-me dela ao postigo.

Lembro-me dela ao postigo,
Tão mimosa
E, agora, põe-se à janela,
Os cabelos cor de trigo, não há rosa...
Não há rosa como ela.

Não há rosa como ela na cidade
Nem nos campos donde vim
Agora, põe-se à janela com vaidade,
À noite, à espera de mim.

Lembro-me dela ao postigo
E, agora, põe-se à janela
É só isto que vos digo:
Não há rosa como ela.

Texto de João Monge

Surgiu, no coreto do meu lar, um grupo de alentejanos que realizou um "Baile Popular", presenteando-me, assim, com a canção "muito portuguesa" que divulgo. Eis a mestria da dupla homónima, o músico João Gil e o Sr. Prof. João Monge... E, que o "Baile Popular" seja um sucesso...

"Vai um abraço", João...

sábado, junho 19, 2010

Palavras Nunca Antes Ditas

Tudo o que sobressai da utopia que advogo
Não é mais do que um substrato do tempo que vivi,
Como a lágrima vertida na atmosfera onde vogo,
Não é mais do que um piano pungente que tange por ti...
E as mãos que, na solidão, se intimidam,
Que se desertificam quando o tempo esvaece,
Não são mais do que as palavras nunca antes ditas
E veladas num âmago isolado que entorpece...

Por isso,
Vem...
Que a saudade não desvanece...
Vem...
Que o tempo permanece
E prende-me em ti...

Tudo o que se ocultava no silêncio temível
Não era mais do que a soturna certeza
Que teimava em calcular pela matemática falível
Nos teoremas esotéricos da imensurável natureza.
E se, novamente, me vires assim, imerso no pensamento,
Pensa que emergi do livro do cepticismo filosófico
Escrito pelas mãos da poesia na candura do tempo
E do exagero desenfreado de um amor platónico.

Por isso,
Vem...
Que a saudade não desvanece...
Vem...
Que o tempo permanece
E prende-me em ti...

Texto de João Garcia Barreto

domingo, abril 25, 2010

Caos No Deserto

Eis o eco da sociedade
No silêncio amargo que, infelizmente, sentes...
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos prementes...
Eis a exígua verborreia
Da pura demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.

E a justiça embargada
Nas estantes do tribunal
E a violência anunciada
Na capa do jornal,
É, somente, a desilusão
Em Portugal...

Caos no deserto que vês tão perto...
Destrói o muro que fustiga o futuro.

Eis o crédito mal parado
No declínio da economia que o banqueiro contamina...
Na assembleia dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina...
Eis a crise da Educação
Na ignorância de uma nação que se corrói sem cessar...
Eis a vil plutocracia
Que matou a Utopia que a Liberdade soube legar...

E a justiça embargada
Nas estantes do tribunal
E a violência anunciada
Na capa do jornal,
É, somente, a desilusão
Em Portugal...

Caos no deserto que vês tão perto...
Destrói o muro que fustiga o futuro.

Texto de João Garcia Barreto

Dedicado aos meus pais e a quem acredita, ainda, nos ideais que o "25 de Abril" preconizou... Dedicado a Zeca Afonso, José Mário Branco, Sérgio Godinho, Fausto Bordalo Dias, Paulo de Carvalho, entre outros cantautores e poetas de Abril. Dedicados aos jovens de "pós-revolução" que pelejam por um país diferente...

terça-feira, abril 13, 2010

Silêncio Vadio

Perdes o pudor no beijo
Que cedes no semblante que miras
E deitas-te no bel regaço, onde bailas e suspiras.
Devaneias, livre, na luz cambiante
Que, na noite, aflora
E abraças o Mundo no instante que mora.

Despes o corpo no desejo
Que desatas na paixão que arvora
E agarras o ledo ensejo que, no quarto, se demora.
Estendes-te, nua, no chão da alma
Que, no leito, se aventura
E antevês o amor no tempo que perdura.

Danças, perdida, no silêncio vadio
E brindas ao destino no sorvo que bebes.
Entregas a vida ao corpo vazio
Que tange o céu no beijo que cedes
E sorris...

Deleitas-te, enfim, na paz
Que persiste no tempo que sentes
E voas na sombra que jaz na palma das mãos prementes.
Adormeces, depois, na cama que vacila
Na noite que esvanece
E deixas-te partir no sonho que amanhece.

Texto de João Garcia Barreto
Música de Ruben Alves

Um grande abraço, Ruben

A preparar a próxima...

Canção sem intérprete... Em breve, será publicada... Poderão consultar o trabalho do autor da música, aqui.

segunda-feira, março 08, 2010

Saiu Para a Rua

Saiu decidida para a rua
Com a carteira castanha
E o saia-casaco escuro
Tantos anos, tantas noites
Sem sequer uma loucura

Ele saiu sem dizer nada,
Talvez fosse ao teatro chino.
Vai regressar de madrugada
E acordá-la cheio de vinho

Tantos anos, tantas noites
Sem nunca sentir a paixão.
Foram já as bodas de prata
Comemoradas em solidão

Pôs um pouco de baton
E um leve toque de pintura.
Tirou do cabelo o travessão
E devolveu, ao rosto, a candura

Saiu para a rua insegura,
Vagueou sem direcção.
Sorriu a um homem com tremura
E sentiu escorrer do coração
A humidade quente da loucura


Texto de Carlos Tê

A todas mulheres...

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Chamar a Música


Esta noite, vou ficar assim,
Prisioneira desse olhar
De mel pousado em mim.
Vou chamar a música,
Pôr à prova a minha voz
Numa trova só para nós.

Esta noite, vou beber licor
Como um filtro redentor
De amor, amor, amor...
Vou chamar a música,
Vou pegar na tua mão,
Vou compôr uma canção.

Chamar a Música,
Música,
Tê-la, aqui, tão perto,
Como o vento no deserto
Acordado em mim.
Chamar a Música,
Música,
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas,
Abraçar-te apenas
É chamar a música.

Esta noite, não quero a TV,
Nem a folha do jornal
Banal que ninguém lê.
Vou chamar a música,
Murmurar um madrigal,
Inventar um ritual.

Esta noite, vou servir um chá
Feito de ervas e jasmim
E aromas que não há,
Vou chamar a música,
Encontrar à flor de mim
Um poema de cetim.

Chamar a Música,
Música,
Tê-la, aqui, tão perto
Como o vento no deserto
Acordado em mim.
Chamar a Música,
Música,
Musa dos meus temas
Nesta noite de açucenas,
Abraçar-te apenas
É chamar a música.

Texto de Rosa Lobato Faria

Até Sempre, Rosa Lobato Faria

segunda-feira, janeiro 25, 2010

Persegue-me


Persegue o bailado das mãos
Que pousas no chão da aventura
E dança na euritmia da canção
Que ecoa no silêncio da loucura.

Persegue o bálsamo da madrugada,
Quando o âmago se desarma no leito
E absorve a paixão que se alberga
Na noite que espelha o amor perfeito.

E o ensejo irrompe na silhueta rara
Do ledo corpo que baila na estrada
E rasuras o tempo no céu da manhã clara
E abraças o Mundo na noite findada.

Texto de João Garcia Barreto
Pintura de Cristina Huertas

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Ledo Hiato


De tez macia e lasciva,
Sorris, à noite, no quarto, onde matizas a Primavera.
Disseminas, no soalho, as flores que amas
E escreves o adágio na atmosfera.
Semeias o viço das açucenas
E das puras acácias no Universo.
Prendes-me no beijo de uma semibreve
E estendo-me no esteiro de um verso.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...

De tule pardo e liso,
Vagueias, à noite, no quarto, onde o tempo permanece.
Contornas levemente a sombra que vês
E desenhas a Lua que evanesce.
Semeias o viço dos miósotis
E das puras azáleas na Utopia.
Enleias-me no regaço de um leito de seda
E perduro nos braços da Poesia.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...

Cedo-te a sidra no remanso dourado,
Cedes-me o suco de essência melada,
Brindamos ao Infinito num só trago...
Bebemos a seiva eternizada
que produzes no quarto contemplado,
Onde deambulamos de mão dada.

E deixas-te ficar no ledo hiato,
Onde bailam anjos no silêncio lauto...
E deixas-te ficar aqui...

Texto de João Garcia Barreto
Pintura de Cristina Huertas

Feliz Natal a todos

terça-feira, novembro 17, 2009

Fada do Tempo

Desvendei-te na friagem da noite, quando as asas se quebraram de tanto sobrevoar as lacunas veladas no Mundo. Amainaste os vendavais que pareciam infindáveis e aconchegaste-me no regaço, onde, ainda, teimo em repousar. Transfiguraste-me e inverteste a dolência de um anjo enfadonho, emancipando-o com o alento que transborda de ti…
Talvez sejas dona do tempo e saibas inverter sortilégios… De que terno sonho vieste? De que eterno conto surgiste?
Insurgiste-te nos nefastos pesadelos, que, inexoravelmente, me corroíam, cobrindo-me com um invólucro feérico. Cristalizaste o tempo no meu âmago estrógeno e ofereceste-me hipérboles, metonímias e metáforas sem fim. Com as tuas asas, sou, hoje, dono do céu… De que noite irrompi? De que sonho renasci? Talvez de ti, Fada do Tempo…

Obrigado, Mãe…

quarta-feira, novembro 04, 2009

Doce Ensejo

Insurge-se o ensejo, no silêncio do tempo
E a mão aberta que se quer fechar,
Enquanto dançamos na avenida
Antes da manhã regressar...
Desvendo o desejo que se oculta em ti
Na solidão das palavras que recitas
E prendo-me nas teias dos sorrisos
Que, na avenida, dissipas.

E a noite esvaece...
E o tempo permanece em mim...

E se a Lua adormecer,
Sei que me beijas ao amanhecer...
E se o Sol despertar,
Sei que a mão se vai fechar...

Sibila na avenida o doce desejo,
Que se oculta no sopro do vento
E persigo as palavras que soltas
No ledo balanço do momento.

Texto de João Garcia Barreto


Um poema de uma canção composta em 2004...