Sei que desdenho o que é inútil
E a sabedoria de um lacrau fútil
Que esbanja demagogia
Nos dias de romaria.
Sei que desdenho o lugar,
Onde se perde tempo a escutar
As verborreias tão exíguas,
Ditas por mentes não ambíguas.
Sei que desdenho o consumismo
Que corrobora o materialismo
E toda a instância do Poder
Que transfigura o ser...
Isto é só o materialismo da história,
O eufemismo da memória.
Ai, Portugal,
Por onde me levas!
Texto de João Garcia Barreto
segunda-feira, agosto 25, 2014
terça-feira, junho 24, 2014
No Voo de Um Anjo
Da janela do quarto,
A tua fobia suspirava.
Esperavas pelo anjo
Que tardava.
E, dos jardins de Éden,
Irrompe no voo inaudito,
O anjo que aguardavas
No teu lugar interdito.
E, no silêncio do quarto,
Só o teu esgar não negou
A Eternidade de um beijo
De quem, ao momento, se entregou.
E, com o desvelo de um abraço
De um anjo eterno que voou,
Imunizaste, no leito,
O amor que, no quarto, deixou.
No voo de um anjo,
Onde flutuavas,
Desarvorou a dolência
Que tanto exorcizavas.
E, no parapeito do postigo,
Lá se despediu
O teu anjo perene
Que só o teu olhar viu.
Texto de João Garcia Barreto
Canção escrita em 2003
A tua fobia suspirava.
Esperavas pelo anjo
Que tardava.
E, dos jardins de Éden,
Irrompe no voo inaudito,
O anjo que aguardavas
No teu lugar interdito.
E, no silêncio do quarto,
Só o teu esgar não negou
A Eternidade de um beijo
De quem, ao momento, se entregou.
E, com o desvelo de um abraço
De um anjo eterno que voou,
Imunizaste, no leito,
O amor que, no quarto, deixou.
No voo de um anjo,
Onde flutuavas,
Desarvorou a dolência
Que tanto exorcizavas.
E, no parapeito do postigo,
Lá se despediu
O teu anjo perene
Que só o teu olhar viu.
Texto de João Garcia Barreto
Canção escrita em 2003
quarta-feira, junho 11, 2014
Beijo da Eternidade
Tudo o que vejo não é miragem,
tudo o que desvendo na alma
perdura na essência da imagem
do mar que acalma.
Tudo o que sinto na realidade,
o que armazeno na arca sincera,
transfigura a doce saudade
numa rosa da Primavera.
Tudo o que em mim flameja,
tudo o que em mim é fecundo,
é a Música que me beija
numa lacuna do Mundo.
Tudo perdura nas páginas da verdade.
Tudo o que existe e não tem fim,
fortalece a doce saudade,
beijo da Eternidade em mim.
e tudo o que vês não é submerso,
a imagem que observas é o regresso.
De novo, perto de mim,
observas o Horizonte,
se eu, a ti, retornei
foi da água que bebi na fonte.
Estava escrito nas lajes
da fonte em que bebi
o segredo que desvendei
para repousar, hoje, aqui.
Texto de João Garcia Barreto
Canção escrita em 2003
perdura na essência da imagem
do mar que acalma.
Tudo o que sinto na realidade,
o que armazeno na arca sincera,
transfigura a doce saudade
numa rosa da Primavera.
Tudo o que em mim flameja,
tudo o que em mim é fecundo,
é a Música que me beija
numa lacuna do Mundo.
Tudo perdura nas páginas da verdade.
Tudo o que existe e não tem fim,
fortalece a doce saudade,
beijo da Eternidade em mim.
e tudo o que vês não é submerso,
a imagem que observas é o regresso.
De novo, perto de mim,
observas o Horizonte,
se eu, a ti, retornei
foi da água que bebi na fonte.
Estava escrito nas lajes
da fonte em que bebi
o segredo que desvendei
para repousar, hoje, aqui.
Texto de João Garcia Barreto
Canção escrita em 2003
sábado, junho 08, 2013
Beijo em Flor
Não sei dizer-te
se o que arde no pejo
é a frágua de ter-te
no mosto do beijo,
se a luz que tece
a silhueta do dia
é a mão que amanhece
sobre a pele macia.
Sei só dizer-te
que o corpo fermenta
a ânsia de ver-te
no que o tempo alenta.
Exala o cravo
do peito em ardor
e baila na dança
de um beijo em flor.
Não sei dizer-te
se já sei o enredo
do sonho de querer-te
sobre o chão sem medo,
se a tez carmesim
que contemplas agora
é o amor sem fim
na terna aurora.
Sei só dizer-te
que o corpo fermenta
a ânsia de ver-te
no que o tempo alenta.
Exala o cravo
do peito em ardor
e baila na dança
de um beijo em flor.
Texto de João Garcia Barreto
Tema registado no IGAC e realizado para peça "Carnaval Infernal", escrita por Carlos Correia e produzida pelo Teatro Passagem de Nível
se o que arde no pejo
é a frágua de ter-te
no mosto do beijo,
se a luz que tece
a silhueta do dia
é a mão que amanhece
sobre a pele macia.
Sei só dizer-te
que o corpo fermenta
a ânsia de ver-te
no que o tempo alenta.
Exala o cravo
do peito em ardor
e baila na dança
de um beijo em flor.
Não sei dizer-te
se já sei o enredo
do sonho de querer-te
sobre o chão sem medo,
se a tez carmesim
que contemplas agora
é o amor sem fim
na terna aurora.
Sei só dizer-te
que o corpo fermenta
a ânsia de ver-te
no que o tempo alenta.
Exala o cravo
do peito em ardor
e baila na dança
de um beijo em flor.
Texto de João Garcia Barreto
Tema registado no IGAC e realizado para peça "Carnaval Infernal", escrita por Carlos Correia e produzida pelo Teatro Passagem de Nível
sábado, abril 20, 2013
A Fome dos Dias
O corpo desespera e sobrevive sem futuro,
o âmago lacera no chão que não é seguro
e o fel da Sida devora o resto da vida
de quem dorme no cadoz e suplica sem voz
na sorte perdida.
Solta-te
e vem,
Mata a fome dos dias.
Sente
e sacia
a dor das mãos vazias.
A alma exaspera e devasta-se na luz do dia,
a solidão impera em sonhos sem a cotovia,
o rosto do medo augura o fim do enredo
e o Mundo fenece na mão de quem pede perdão
e jaz no degredo.
Solta-te
e vem,
Mata a fome dos dias.
Sente
e sacia
a dor das mãos vazias.
Texto de João Garcia Barreto
Texto registado no IGAC e escrito para uma música composta por Ruben Alves
o âmago lacera no chão que não é seguro
e o fel da Sida devora o resto da vida
de quem dorme no cadoz e suplica sem voz
na sorte perdida.
Solta-te
e vem,
Mata a fome dos dias.
Sente
e sacia
a dor das mãos vazias.
A alma exaspera e devasta-se na luz do dia,
a solidão impera em sonhos sem a cotovia,
o rosto do medo augura o fim do enredo
e o Mundo fenece na mão de quem pede perdão
e jaz no degredo.
Solta-te
e vem,
Mata a fome dos dias.
Sente
e sacia
a dor das mãos vazias.
Texto de João Garcia Barreto
Texto registado no IGAC e escrito para uma música composta por Ruben Alves
sábado, fevereiro 09, 2013
Carrossel do que Sou
Meu Amor,
Bem-vinda ao carrossel da vida que se cria,
Onde serei o comparsa fiel em noites de utopia.
Sabes que sou uma fera acossada no país sisudo
Ou, talvez, a audácia de Guevara com mãos de veludo.
Juro que serei o astro inflamado no Mundo que devora
E, sempre, o café pingado na manhã que arvora.
E o fruto do ventre na alvorada
Sabes que sou o poeta vergado que sonega a solidão
Ou, talvez, o elixir almejado na cegueira da nação.
Serei a morfina desejada,
O querubim de capa e espada
E o fruto do ventre na alvorada
Texto de João Garcia Barreto
Bem-vinda ao carrossel da vida que se cria,
Onde serei o comparsa fiel em noites de utopia.
Sabes que sou uma fera acossada no país sisudo
Ou, talvez, a audácia de Guevara com mãos de veludo.
Meu Amor,
Não serei o puto mimado com medo do papão.
Sei que serei o Zorro amado e o terno D'Artacão.Não serei o puto mimado com medo do papão.
Juro que serei o astro inflamado no Mundo que devora
E, sempre, o café pingado na manhã que arvora.
Serei a morfina desejada,
O querubim de capa e espadaE o fruto do ventre na alvorada
E vem...
Bem-vinda ao carrossel do que sou.
Meu Amor,
Bem-vinda ao sonho da alma que vês na mão,
Onde serei o abraço do Palma na mais bela canção.Bem-vinda ao sonho da alma que vês na mão,
Sabes que sou o poeta vergado que sonega a solidão
Ou, talvez, o elixir almejado na cegueira da nação.
Serei a morfina desejada,
O querubim de capa e espada
E o fruto do ventre na alvorada
E vem...
Bem-vinda ao carrossel do que sou.Texto de João Garcia Barreto
quarta-feira, janeiro 30, 2013
Caos no Deserto
Eis o eco da sociedade
No sabor amargo que, infelizmente, sentes.
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos urgentes.
Eis a fútil verborreia
Da demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.
E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.
Eis a dívida que pagas
De quem é culpado pela dor que predomina.
Na “off-shore” dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina.
Eis a crise da educação
Na ignorante nação que se corrói sem cessar.
Eis a vil plutocracia
Que matou o dia que a Liberdade soube legar.
Da desilusão em Portugal.
Texto de João Garcia Barreto
No sabor amargo que, infelizmente, sentes.
No país das ilusões,
Há quem saiba deturpar os sonhos urgentes.
Eis a fútil verborreia
Da demagogia da política emproada
Que, no ciclo vicioso,
Zomba sempre na penúria de uma mão sem nada.
E a notícia cabal
E a riqueza no jornal
Da desilusão em Portugal.
Caos no deserto que vês tão perto.
Destrói o muro que fustiga o futuro.Eis a dívida que pagas
De quem é culpado pela dor que predomina.
Na “off-shore” dos agiotas,
Jaz o vulgo na calçada e a escumalha pantomina.
Eis a crise da educação
Na ignorante nação que se corrói sem cessar.
Eis a vil plutocracia
Que matou o dia que a Liberdade soube legar.
E a notícia cabal
E a riqueza no jornalDa desilusão em Portugal.
Caos no deserto que vês tão perto.
Destrói o muro que fustiga o futuro.Texto de João Garcia Barreto
segunda-feira, janeiro 21, 2013
Entre o Sonho e a Ilusão
Sou um sonho
premente no país das ilusões,
Onde reinam os papalvos e os intrujões.
Tu és o colírio que sente e sara as desilusões
De quem sofre rinites e convulsões.
Sou um lírio acossado no âmago da solidão,
Onde jazem fantasmas que zombam sem razão.
Tu és o cravo adorado no seio da revolução
E o perfeito antídoto do coração.
Companheira da Madrugada,
Lê a sina na mão.
O beijo é o fim da estrada
Entre o sonho e a ilusão.
Fui um parto sem dor da terna ventura
E sou um espaço em branco na luz que perdura.
Tu és o sopro de amor que saneia a loucura
E o ensejo na noite que dura.
Companheira da Madrugada,
Lê a sina na mão.
Texto de João Garcia Barreto
Onde reinam os papalvos e os intrujões.
Tu és o colírio que sente e sara as desilusões
De quem sofre rinites e convulsões.
Sou um lírio acossado no âmago da solidão,
Onde jazem fantasmas que zombam sem razão.
Tu és o cravo adorado no seio da revolução
E o perfeito antídoto do coração.
Companheira da Madrugada,
Lê a sina na mão.
O beijo é o fim da estrada
Entre o sonho e a ilusão.
Fui um parto sem dor da terna ventura
E sou um espaço em branco na luz que perdura.
Tu és o sopro de amor que saneia a loucura
E o ensejo na noite que dura.
Companheira da Madrugada,
Lê a sina na mão.
O beijo é o
fim da estrada
Entre o
sonho e a ilusão.Texto de João Garcia Barreto
quinta-feira, dezembro 13, 2012
Livre no Tempo em Mim
O amor murmura a trova de Represas
Na noite que dura nas mãos presas
E voga, feiticeira, em pleno universo
E vive na fogueira de um verso.
O anelo ateia o beijo da vontade
E o corpo anseia a liberdade
E baila, feiticeira, no céu fecundo
E sara a cegueira do Mundo.
Voa, Dama d'Alva, no ardor
Da leda valsa do despudor.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
A paixão aflora no sonho que madruga,
O fel desarvora na doce fuga
E a voz solfeja o que o peito entoa
Na luz que almeja Lisboa.
Voa, Dama d'Alva, no ardor
Da leda valsa do despudor.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
Tatuas a flor no peito
E cravas o verso no leito,
Onde exorcizas a solidão.
Arde o amor perfeito
E morre o pudor desfeito
No alvor do coração.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
Texto de João Garcia Barreto
Registado no IGAC
Na noite que dura nas mãos presas
E voga, feiticeira, em pleno universo
E vive na fogueira de um verso.
O anelo ateia o beijo da vontade
E o corpo anseia a liberdade
E baila, feiticeira, no céu fecundo
E sara a cegueira do Mundo.
Voa, Dama d'Alva, no ardor
Da leda valsa do despudor.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
A paixão aflora no sonho que madruga,
O fel desarvora na doce fuga
E a voz solfeja o que o peito entoa
Na luz que almeja Lisboa.
Voa, Dama d'Alva, no ardor
Da leda valsa do despudor.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
Tatuas a flor no peito
E cravas o verso no leito,
Onde exorcizas a solidão.
Arde o amor perfeito
E morre o pudor desfeito
No alvor do coração.
E sente o alento no fogo lento,
Livre no tempo em mim.
Texto de João Garcia Barreto
Registado no IGAC
sexta-feira, dezembro 07, 2012
Crónica do Lendário Sibilante
Mais um dia que finalizava e a avenida parecia dormir. A Lua abandonou a noite pluviosa e, peremptoriamente, retornei ao refúgio, vasculhando as infinitas lacunas da cidade. A volúpia viperina espreitava pelos becos da avenida quase deserta, enquanto disseminava resquícios do amor genuíno, convertidos em retalhos de utopia na urbe ostracizada.
No silêncio da noite, pensava nas aventuras que, loucamente, vivi e seguia, estoicamente, o rasto deixado pelo ensejo. Sibilava melodias sem fim na ânsia de preconizar o segredo que respirava na avenida e vislumbrei-te no parapeito do postigo, onde, desenfreadamente, plangias. Perguntei-te porque carpias e encolheste os ombros, desviando o olhar que se intimidava. Insisti em questionar-te, cotejando o silêncio que teimavas em ocultar. Balbuciaste escassas palavras que revelavam o que ocultavas no âmago vulnerável que, ainda, possuis e, instantaneamente, enleaste o regaço de um abraço profundo.
Convidei-te para voar e, abruptamente, estendeste-me a mão. Ergui os braços e seguraste-te, firmemente, no cós do corpo de plumas. Prestes, partimos… Voámos sobre o Mundo e a beleza inaudita daquilo que vias e do ar puro da atmosfera que bafejava no semblante que sorria.
Levei-te ao espaço, onde teimo em pousar. Deslindaste todos os segredos que armazenava no refúgio, escutando os ecos da melopeia latente em mim. Após um ósculo demorado, clamaste, perdidamente, pelo perene amor como o verso do soneto eternizado pelo poeta.
As horas passam e os minutos esvaecem... Retornámos ao postigo, onde o teu esgar se vulnerou e, na candura do momento, acariciei-o, prometendo que regressava nas noites incertas. Na terna despedida, lacrimejaste, profundamente, rogando, em desespero, que não partisse. Perguntaste-me quem era… Olhei diante dos teus olhos e respondi: “Sibilante”.
Quando adormeceste, deixei, no parapeito do postigo, as duas pedras que se complementam e parti como uma cotovia, infiltrando-me na infinita atmosfera, onde se encontra o adágio que escrevi.
Irrompeu a soberba aurora... Arvoraste-te, ledamente, do leito de seda. O Sol erradiava e reflectia-se na vidraça da janela e, endogenamente, sentias a melopeia composta no quarto contemplado, onde imunizaste as pedras legadas.
Enfim, abandonaste o lar, cotejando, de novo, o frenesim cotio que se vive, constantemente, no âmago citadino. Indagaste o nome das pedras legadas em cada passo que davas e, em cada palavra que proferias, percebias que necessitavas de uma chave que abrisse a porta do espaço, onde o segredo se encontrava armazenado. Procuraste a chave em cada lacuna da cidade, constatando que, somente, conseguirias desvendá-la se preconizasses a filantropia no Mundo.
No final do dia, a saudade do tempo vivido suspirava na réstia do Sol e concluíste que a chave só poderia ser um substantivo abstracto, composto por quatro letras e idónea de desenredar o segredo do nome das duas pedras que tanto observavas.
No regresso ao parapeito do postigo do quarto, entregavas-te ao tempo no beijo desenfreado que desembocou no sorriso desenhado no semblante que observava. Contei-te histórias sem fim, enquanto bebias as palavras em tragos lentos.
Entrizei-me do leito macio, onde aconchegávamos o corpo e a alma e apontei para o parapeito. As pedras fulgiam e a Lua sorria no manto de estrelas que cobria a cidade cansada.
Por fim, trocámos o derradeiro olhar na madrugada, onde leste o nome das pedras doadas que se complementam e, antes de partir, interpelaste-me: “ Sibilante, é o sonho que comanda a vida? “
Beijei a tua mão e respondi: “ Sim, a vida pode ser o que sonhamos...”
Texto de João Garcia Barreto
Registado no IGAC
No silêncio da noite, pensava nas aventuras que, loucamente, vivi e seguia, estoicamente, o rasto deixado pelo ensejo. Sibilava melodias sem fim na ânsia de preconizar o segredo que respirava na avenida e vislumbrei-te no parapeito do postigo, onde, desenfreadamente, plangias. Perguntei-te porque carpias e encolheste os ombros, desviando o olhar que se intimidava. Insisti em questionar-te, cotejando o silêncio que teimavas em ocultar. Balbuciaste escassas palavras que revelavam o que ocultavas no âmago vulnerável que, ainda, possuis e, instantaneamente, enleaste o regaço de um abraço profundo.
Convidei-te para voar e, abruptamente, estendeste-me a mão. Ergui os braços e seguraste-te, firmemente, no cós do corpo de plumas. Prestes, partimos… Voámos sobre o Mundo e a beleza inaudita daquilo que vias e do ar puro da atmosfera que bafejava no semblante que sorria.
Levei-te ao espaço, onde teimo em pousar. Deslindaste todos os segredos que armazenava no refúgio, escutando os ecos da melopeia latente em mim. Após um ósculo demorado, clamaste, perdidamente, pelo perene amor como o verso do soneto eternizado pelo poeta.
As horas passam e os minutos esvaecem... Retornámos ao postigo, onde o teu esgar se vulnerou e, na candura do momento, acariciei-o, prometendo que regressava nas noites incertas. Na terna despedida, lacrimejaste, profundamente, rogando, em desespero, que não partisse. Perguntaste-me quem era… Olhei diante dos teus olhos e respondi: “Sibilante”.
Quando adormeceste, deixei, no parapeito do postigo, as duas pedras que se complementam e parti como uma cotovia, infiltrando-me na infinita atmosfera, onde se encontra o adágio que escrevi.
Irrompeu a soberba aurora... Arvoraste-te, ledamente, do leito de seda. O Sol erradiava e reflectia-se na vidraça da janela e, endogenamente, sentias a melopeia composta no quarto contemplado, onde imunizaste as pedras legadas.
Enfim, abandonaste o lar, cotejando, de novo, o frenesim cotio que se vive, constantemente, no âmago citadino. Indagaste o nome das pedras legadas em cada passo que davas e, em cada palavra que proferias, percebias que necessitavas de uma chave que abrisse a porta do espaço, onde o segredo se encontrava armazenado. Procuraste a chave em cada lacuna da cidade, constatando que, somente, conseguirias desvendá-la se preconizasses a filantropia no Mundo.
No final do dia, a saudade do tempo vivido suspirava na réstia do Sol e concluíste que a chave só poderia ser um substantivo abstracto, composto por quatro letras e idónea de desenredar o segredo do nome das duas pedras que tanto observavas.
No regresso ao parapeito do postigo do quarto, entregavas-te ao tempo no beijo desenfreado que desembocou no sorriso desenhado no semblante que observava. Contei-te histórias sem fim, enquanto bebias as palavras em tragos lentos.
Entrizei-me do leito macio, onde aconchegávamos o corpo e a alma e apontei para o parapeito. As pedras fulgiam e a Lua sorria no manto de estrelas que cobria a cidade cansada.
Por fim, trocámos o derradeiro olhar na madrugada, onde leste o nome das pedras doadas que se complementam e, antes de partir, interpelaste-me: “ Sibilante, é o sonho que comanda a vida? “
Beijei a tua mão e respondi: “ Sim, a vida pode ser o que sonhamos...”
Texto de João Garcia Barreto
Registado no IGAC
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